Inovações do português a partir do século XVII

"A partir do século XVII, o português falado em Portugal conheceu algumas mudanças estruturais importantes, sobre as quais podem ser feitas duas observações de caráter geral: 1) elas partiram da região centro-sul de Portugal e acabaram prevalecendo praticamente em todo o território português; 2) elas não alcançaram a Galiza, e assim contribuíram para criar a distância que existe hoje em dia entre o português e o galego. Observemos mais de perto cada uma dessas inovações:

(1) como vimos, o português de 1500 contava com quatro sibilantes: as africadas /ts/ e /dz/ e as fricativas /s/ e /z/. Esse sistema de quatro sibilantes dava conta de distinguir na pronúncia palavras como:
          /ts/ - /dz/  =   aceite - azeite
          /s/ - /dz/  =  assar - azar
          /ts/ - /s/  =  cela - sela
          /s/ - /z/  =  cassa - casa
          /ts/ - /z/  =  caça - casa
          /dz/ - /z/  =  cozer - coser
No século XVII, completou-se a redução do quadro de quatro sibilantes às duas sibilantes fricativas atuais, /s/ e /z/; os falantes de algumas regiões de Portugal mantêm uma diferença na forma de realizar o /s/ e o /z/ conforme se originam de uma antiga fricativa ou de uma antiga africada, mas essa diferença é dialetal;

(2) o ditongo /ow/ que aparece em palavras como cousa e louco, louvar e na terminação de perfeitos do indicativo como achou e louvou sofreu, no século XVII, um processo de monotongação, passando a /o/. Em reação a esse processo, algumas palavras desenvolveram outro ditongo, /oj/, daí a alternância cousa/coisa, louro/loiro (mas não louvou / *louvoi), que é possível até hoje para algumas palavras;

(3) sempre no século XVII, desapareceu da língua a africada [tʃ], que se simplificou em [ʃ]. Essa mudança atingiu palavras como macho, chave, concha e Sancho, em que o dígrafo <ch> representava, anteriormente ao século XVII, o mesmo som que aparece nas palavras espanholas macho e (buena) dicha;

(4) já no século XVIII, a realização do /s/ e do /z/ em finais de sílaba e de palavras passou a "chiante", daí pronúncias como [maiʃ] e [aʒnʊ] para as grafias <mais> e <asno>. Como se sabe, essa pronúncia é a que prevalece no Brasil numa região que vai do Rio de Janeiro à Bahia e também na região Norte;

(5) a partir do século XVIII, o português europeu conheceu o que podemos chamar de "redução" das vogais átonas, um conjunto de fenômenos que atingiu esses fonemas tanto em posição pretônica como em posição final. Em posição final, /u/ e /o/ átonos confundiram-se na realização intermediária [ʊ] que vigora, até hoje, dos dois lados do Atlântico. Paralelamente, /e/ e /i/ passam a receber uma realização intermediária /I/, que prevalece até hoje no Brasil (pense-se na pronúncia do <e> final de palavras como <esse> e <perde>). Em Portugal, esse /I/ evoluiu em seguida para /ə/, uma vogal fechada e breve que é desconhecida dos brasileiros. Em posição pretônica, /e/ também evoluiu para /ə/ (<pessoa> pronunciado [pə`soa] e /o/ evoluiu para /u/ (criando uma pronúncia idêntica para as grafias <morada> e <murada>);


(6) no século XIX, os ditongos /ej/ e /e~j/ evoluem para /aj/ e /a~j/ (em português europeu corrente, bem  pode rimar com mãe);


(7) idem a passagem de /e/ tônico a /a/ antes de palatal (como nas palavras <espelho>, nas quais o segundo <e> é pronunciado [a]);


(8) idem a difusão da realização uvular do "r forte".


De todos os fenômenos aqui enumerados, apenas os mais antigos (isto é, (1), (2) e (3)) são compartilhados por todas as variedades do português brasileiro. A pronúncia chiante do <s> e do <z> (4) finais é um fenômeno localizado (Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e nas regiões Norte e Nordeste), o que já fez pensar que sua difusão se deu a partir do Rio de Janeiro, depois da instalação da corte de D. João VI. Já as mudanças descritas em (5), (6), (7) e (8) não passaram para o Brasil, e isso tem sido motivo para declarar que o português do Brasil é uma língua "mais antiga" ou "mais arcaica" - uma avaliação que é recorrente nos filólogos brasileiros.
De todas as mudanças do português europeu que o Brasil não acompanhou, as mais sensíveis são as que descrevemos em (5); em seu conjunto, elas contribuíram para enfraquecer as vogais átonas em face da vogal tônica, e isso dá ao português europeu uma prosódia particular e uma pronúncia em que sobressaem as consoantes. Explicam-se assim algumas impressões que os portugueses têm dos brasileiros, por exemplo, que "falam arrastado", e impressões que os brasileiros têm dos portugueses, por exemplo, que "falam mais rápido", "engolem sílabas e letras"."

Ilari, Rodolfo. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Editora Contexto, 2009.




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