Você


"[...] entre os séculos XVI e XVII, a forma "você" cumpriu uma das principais etapas do processo pelo qual passou de expressão de tratamento a pronome. Como se sabe, "você" é, hoje, o principal pronome de segunda pessoa do português do Brasil, mas origina-se de uma antiga expressão de tratamento, Vossa Mercê, que, no século XIV, era usada de forma exclusiva para o rei. Da metade do século XV em diante, vossa mercê desaparece progressivamente nessa função e torna-se corrente no tratamento entre fidalgos; no século XVI, já reduzida a você, cai na boca do povo, fixando-se como pronome. O primeiro registro escrito da forma você é de 1666."

Ilari, Rodolfo. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Editora Contexto, 2009.


VOSSA MERCÊ > VOSMECÊ > VOCÊ > OCÊ > CÊ

"Vossa Mercê era um tratamento dispensado aos reis. Com o desenvolvimento da burguesia, os novos-ricos quiseram esse tratamento para eles também. Indignado, o rei passou a reclamar Vossa Majestade para ele, lembrando decerto aos burgueses que uma forca tinha sido convenientemente erigida defronte ao paço, caso eles resolvessem repetir a gracinha.

De todo modo, Vossa Mercê e derivados era um tratamento cerimonioso, dado "pelos de baixo" "aos de cima". Veja como é a roda da fortuna: pois não é que o derivado você passou a ser no português brasileiro um tratamento de igual para igual? Para o tratamento cerimonioso, inventou-se o senhor/a senhora, com suas variantes sior, sor, seu/nhô, nhora, sua.

Em regiões brasileiras em que o tratamento tu continua vigente, o suo de você traz de volta o antigo distanciamento válido nos tempos imperiais. E onde o tu bateu em retirada, ele e seus derivados podem reaparecer quando se quer afetar distanciamento, como nesta bronca familiar: Olhe aí o que o teu filho aprontou! Eu te falei para vigiar esse menino!"

Castilho, Ataliba T. de. Pequena gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2012.

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